Let's travel?

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Entre sem bater.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Como médico e doente em uma pessoa.


"A vida mesma nos recompensa por nossa tenaz vontade de vida, por uma longa guerra, tal como a que eu, daquela vez, travei comigo mesmo contra o pessimismo do cansaço de viver." (N.)
"Eu falava sem testemunhas, para não sofrer com o calar, eu falava puramente de coisas que nada me importavam, mas como se algo me importassem. Daquela vez aprendi a arte de me dar por sereno, objetivo, curioso, antes de tudo por sadio e maldoso." (N.)
"Doravante solitário e maldosamente desconfiado de mim tomei dessa forma, não sem desgosto, partido contra mim e por tudo o que precisamente a mim fazia mal e me era duro: assim reencontrei o caminho para aquele bravo pessimismo, que é o oposto de toda mendacidade romântica, e também, como quer-me parecer hoje, o caminho para 'mim' mesmo, para minha tarefa. [...]Curioso e terrível ao mesmo tempo! Nossas facilidades são aquilo por que temos de pagar mais duramente! E se queremos, depois, retornar à saúde, não nos resta nenhuma escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que jamais estivemos carregados antes..."

Devaneio.

Ele não era atraente. Simples, quieto, obscuro. Misterioso. Ela o notou. Talvez só ela. Em meio a tantos, ele era imperceptível. Mas não para ela. Sempre trajado como um qualquer, barba por fazer, tênis rasgados. Ele guardava um segredo que nunca ninguém conseguira antes desvendar. Pudera, ninguém nunca havia antes se importado com ele, que dirá com o segredo dele. Mas ela era diferente. Ela não conseguia dormir pensando naquele sorriso de Monalisa, naqueles olhos oblíquos e, diria Machado, dissimulados. Atrás daquelas lentes havia um brilho inexplicável, inexplorado. Em seu mundo tão próprio, tão interiorizado, ele parecia não enxergar nada ao redor dele. Não parecia existir nada ao redor dele. E ela sonhava e sonhava. Sonhava com o segundo em que ele sorriria para ela. Com o dia em que a abraçaria e, então, a seguraria pelos ombros, olharia fundo em seus olhos e, ajeitando uma mecha do cabelo fino e claro dela, ele diria "nunca senti isso por ningúem". E seria verdade, seria sincero, ah! se seria. Ele limparia a doce lágrima que se projetaria no canto do olho esquerdo dela, ela que nunca havia antes se entregue aos braços de nenhum outro, respiraria fundo e com as pálpebras fechadas beijaria suavemente as mãos dele. Mãos, essas, que jamais abandonariam as mãos dela. Com um susto e um suspiro, o sinal estridente significaria o final da aula. Ela despertaria e veria que tudo havia sido apenas um devaneio, um lindo devaneio. E ali estava ele, a sete carteiras de distância, cinco metros que significavam o abismo entre ele e ela. Ele, que não sabia sequer o nome dela. E nunca viria a saber. O devaneio, o mais doce dos devaneios.


R.L.A.

quarta-feira, 30 de março de 2011


"Querer ser justo e querer ser juiz."
"Fui eu o único que com ele - sofreu? Basta, a mim mesmo esse inesperado acontecimento, como um relâmpago, clareou o lugar que eu havia deixado - e trouxe também aquele terror posterior, que sente todo aquele que insconscientemente passou por um perigo monstruoso. Ao prosseguir sozinho, estremeci; não passou muito tempo, e fiquei doente, mais que doente, ou seja, cansado, de intolerável desilusão por tudo o que resta a nós, homens modernos de entusiasmo, por tudo o que se esperdiça em todo lugar, de força, trabalho, esperança, juventude, amor; cansado pelo nojo do que há de efeminado e fanaticamente indisciplinado nesse romantismo, de toda a mendacidade idealista e seu amolecimento da consciência, que aqui mais uma vez triunfou sobre um dos mais bravos; cansado, enfim, e não em último lugar, pelo desgosto de uma inexorável premonição - de que eu, depois dessa desilusão, esteja condenado a desconfiar mais profundamente, a desprezar mais profundamente, a estar mais profundamente sozinho do que nunca antes." (F.N.)
"Sinto algemas que me prendem os pulsos.
Sinto mordaças que me impedem de gritar."

- sr. Vito Pentagna
"Toma posteriormente uma multidão de coisas dolorosas, que tem abaixo de si, atrás de si, e ainda as fixa para si mesmo e como que as espeta com alguma ponta de agulha: - o que é de se admirar, se em um trabalho tão pontiagudo e espicaçante escorre também, ocasionalmente, um pouco de sangue, se ao fazê-lo o psicológico tem sangue nos dedos, e nem sempre somente - nos dedos?..." (F.N.)
"Deve-se falar somente quando não se pode calar; e falar somente daquilo que se superou - tudo o mais é tagarelice, 'literatura', falta de disciplina." (F. N.)

terça-feira, 29 de março de 2011

"Nos amávamos agora com verdade perfeita mas sem curiosidade, sem a volúpia de brincar com fogo, sem sem aprendizado mais. E fora em defesa da amizade mesma que lhe mudáramos a... a técnica de manifestação. E essa técnica, feita de afastamentos e paciências, naquele estádio de verdades muito preto e branco, era uma pequena, voluntária desagregação impensada. De maneira que adquiríamos uma convicção falsa de que estávamos nos afastando um do outro, por incapacidade, ou melhor: por medo de nos analisarmos em nossa desagregação verdadeira, entenda quem quiser." (M. de A.)
"Agora falávamos insistentemente da nossa 'amizade eterna', projetos de nos vermos diariamente a vida inteira, juramentos de um fechar os olhos do que morresse primeiro. [...] Estávamos nos amando como amigos outra vez; estávamos nos desejando, exaltantes no ardor, mas decididos, fortíssimos, sadios.
- Precisamos tomar mais cuidado.
Quem falou isso? Não sei se fui eu se foi ele, escuto a frase que jorrou de nós. Jamais fui tão grande na vida." (M. de A.)
"Fiquei de pensar e, dialogando com as aspirações dele, pra não ficar atrás, meio que menti. Acabei mentindo duma vez. Veio aquele prazer de me transportar pra dentro do romance, e tudo foi se realizando num romance de bom-senso discreto, pra que a mentira não transparecesse, e onde a coisa mais bonita era minha alma. Ele então me olhava com os olhos quase úmidos, alargados, de êxtase generoso. Acreditava. Acreditou tudo. De resto, não acreditar seria inferioridade. E foi esse o maior bem que guardo dele, porque uma parte enorme do que de bom e de útil tenho sido vem daquela alma que precisei me dar, pra que pudessemos nos amar com franqueza." (M. de A.)
"Não há duvida que se agradava de mim, inalteravelmente feliz de me ver e conversar comigo. Apenas eu percebia, irritado, que era a mesma coisa com todos. Não consegui ser discreto." (M. de A.)
"Em mim sucede que a inveja não consegue se resolver em ódio, nem mesmo em animosidade: produz mas uma competência divertida, esportiva, que me leva à imitação. Tive ânsias de imitá-lo. Quis ser ele, quis ser dele, me confundir naquele esplendor, e ficamos amigos." (M. de A.)

domingo, 27 de março de 2011

10 coisas que eu odeio em você.

"Odeio o modo como fala comigo e como corta o cabelo.
Odeio como dirige o meu carro.
E odeio seu desmazelo.
Odeio suas enormes botas de combate.
E como consegue ler minha mente. Eu odeio tanto isso em você, que até me sinto doente.
Eu odeio como está sempre certo.
E odeio quando você mente.
Eu odeio quando me faz rir muito, e mais quando me faz chorar.
Eu odeio quando não está por perto, e o fato de não me ligar.
Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar.
Nem um pouco, nem mesmo por um segundo, nem mesmo só por te odiar."