Let's travel?

Let's travel?
Entre sem bater.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Como médico e doente em uma pessoa.


"A vida mesma nos recompensa por nossa tenaz vontade de vida, por uma longa guerra, tal como a que eu, daquela vez, travei comigo mesmo contra o pessimismo do cansaço de viver." (N.)
"Eu falava sem testemunhas, para não sofrer com o calar, eu falava puramente de coisas que nada me importavam, mas como se algo me importassem. Daquela vez aprendi a arte de me dar por sereno, objetivo, curioso, antes de tudo por sadio e maldoso." (N.)
"Doravante solitário e maldosamente desconfiado de mim tomei dessa forma, não sem desgosto, partido contra mim e por tudo o que precisamente a mim fazia mal e me era duro: assim reencontrei o caminho para aquele bravo pessimismo, que é o oposto de toda mendacidade romântica, e também, como quer-me parecer hoje, o caminho para 'mim' mesmo, para minha tarefa. [...]Curioso e terrível ao mesmo tempo! Nossas facilidades são aquilo por que temos de pagar mais duramente! E se queremos, depois, retornar à saúde, não nos resta nenhuma escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que jamais estivemos carregados antes..."

Devaneio.

Ele não era atraente. Simples, quieto, obscuro. Misterioso. Ela o notou. Talvez só ela. Em meio a tantos, ele era imperceptível. Mas não para ela. Sempre trajado como um qualquer, barba por fazer, tênis rasgados. Ele guardava um segredo que nunca ninguém conseguira antes desvendar. Pudera, ninguém nunca havia antes se importado com ele, que dirá com o segredo dele. Mas ela era diferente. Ela não conseguia dormir pensando naquele sorriso de Monalisa, naqueles olhos oblíquos e, diria Machado, dissimulados. Atrás daquelas lentes havia um brilho inexplicável, inexplorado. Em seu mundo tão próprio, tão interiorizado, ele parecia não enxergar nada ao redor dele. Não parecia existir nada ao redor dele. E ela sonhava e sonhava. Sonhava com o segundo em que ele sorriria para ela. Com o dia em que a abraçaria e, então, a seguraria pelos ombros, olharia fundo em seus olhos e, ajeitando uma mecha do cabelo fino e claro dela, ele diria "nunca senti isso por ningúem". E seria verdade, seria sincero, ah! se seria. Ele limparia a doce lágrima que se projetaria no canto do olho esquerdo dela, ela que nunca havia antes se entregue aos braços de nenhum outro, respiraria fundo e com as pálpebras fechadas beijaria suavemente as mãos dele. Mãos, essas, que jamais abandonariam as mãos dela. Com um susto e um suspiro, o sinal estridente significaria o final da aula. Ela despertaria e veria que tudo havia sido apenas um devaneio, um lindo devaneio. E ali estava ele, a sete carteiras de distância, cinco metros que significavam o abismo entre ele e ela. Ele, que não sabia sequer o nome dela. E nunca viria a saber. O devaneio, o mais doce dos devaneios.


R.L.A.

quarta-feira, 30 de março de 2011


"Querer ser justo e querer ser juiz."
"Fui eu o único que com ele - sofreu? Basta, a mim mesmo esse inesperado acontecimento, como um relâmpago, clareou o lugar que eu havia deixado - e trouxe também aquele terror posterior, que sente todo aquele que insconscientemente passou por um perigo monstruoso. Ao prosseguir sozinho, estremeci; não passou muito tempo, e fiquei doente, mais que doente, ou seja, cansado, de intolerável desilusão por tudo o que resta a nós, homens modernos de entusiasmo, por tudo o que se esperdiça em todo lugar, de força, trabalho, esperança, juventude, amor; cansado pelo nojo do que há de efeminado e fanaticamente indisciplinado nesse romantismo, de toda a mendacidade idealista e seu amolecimento da consciência, que aqui mais uma vez triunfou sobre um dos mais bravos; cansado, enfim, e não em último lugar, pelo desgosto de uma inexorável premonição - de que eu, depois dessa desilusão, esteja condenado a desconfiar mais profundamente, a desprezar mais profundamente, a estar mais profundamente sozinho do que nunca antes." (F.N.)
"Sinto algemas que me prendem os pulsos.
Sinto mordaças que me impedem de gritar."

- sr. Vito Pentagna
"Toma posteriormente uma multidão de coisas dolorosas, que tem abaixo de si, atrás de si, e ainda as fixa para si mesmo e como que as espeta com alguma ponta de agulha: - o que é de se admirar, se em um trabalho tão pontiagudo e espicaçante escorre também, ocasionalmente, um pouco de sangue, se ao fazê-lo o psicológico tem sangue nos dedos, e nem sempre somente - nos dedos?..." (F.N.)
"Deve-se falar somente quando não se pode calar; e falar somente daquilo que se superou - tudo o mais é tagarelice, 'literatura', falta de disciplina." (F. N.)

terça-feira, 29 de março de 2011

"Nos amávamos agora com verdade perfeita mas sem curiosidade, sem a volúpia de brincar com fogo, sem sem aprendizado mais. E fora em defesa da amizade mesma que lhe mudáramos a... a técnica de manifestação. E essa técnica, feita de afastamentos e paciências, naquele estádio de verdades muito preto e branco, era uma pequena, voluntária desagregação impensada. De maneira que adquiríamos uma convicção falsa de que estávamos nos afastando um do outro, por incapacidade, ou melhor: por medo de nos analisarmos em nossa desagregação verdadeira, entenda quem quiser." (M. de A.)
"Agora falávamos insistentemente da nossa 'amizade eterna', projetos de nos vermos diariamente a vida inteira, juramentos de um fechar os olhos do que morresse primeiro. [...] Estávamos nos amando como amigos outra vez; estávamos nos desejando, exaltantes no ardor, mas decididos, fortíssimos, sadios.
- Precisamos tomar mais cuidado.
Quem falou isso? Não sei se fui eu se foi ele, escuto a frase que jorrou de nós. Jamais fui tão grande na vida." (M. de A.)
"Fiquei de pensar e, dialogando com as aspirações dele, pra não ficar atrás, meio que menti. Acabei mentindo duma vez. Veio aquele prazer de me transportar pra dentro do romance, e tudo foi se realizando num romance de bom-senso discreto, pra que a mentira não transparecesse, e onde a coisa mais bonita era minha alma. Ele então me olhava com os olhos quase úmidos, alargados, de êxtase generoso. Acreditava. Acreditou tudo. De resto, não acreditar seria inferioridade. E foi esse o maior bem que guardo dele, porque uma parte enorme do que de bom e de útil tenho sido vem daquela alma que precisei me dar, pra que pudessemos nos amar com franqueza." (M. de A.)
"Não há duvida que se agradava de mim, inalteravelmente feliz de me ver e conversar comigo. Apenas eu percebia, irritado, que era a mesma coisa com todos. Não consegui ser discreto." (M. de A.)
"Em mim sucede que a inveja não consegue se resolver em ódio, nem mesmo em animosidade: produz mas uma competência divertida, esportiva, que me leva à imitação. Tive ânsias de imitá-lo. Quis ser ele, quis ser dele, me confundir naquele esplendor, e ficamos amigos." (M. de A.)

domingo, 27 de março de 2011

10 coisas que eu odeio em você.

"Odeio o modo como fala comigo e como corta o cabelo.
Odeio como dirige o meu carro.
E odeio seu desmazelo.
Odeio suas enormes botas de combate.
E como consegue ler minha mente. Eu odeio tanto isso em você, que até me sinto doente.
Eu odeio como está sempre certo.
E odeio quando você mente.
Eu odeio quando me faz rir muito, e mais quando me faz chorar.
Eu odeio quando não está por perto, e o fato de não me ligar.
Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar.
Nem um pouco, nem mesmo por um segundo, nem mesmo só por te odiar."

sábado, 26 de março de 2011

"- Penso… se há tantas cabeças quantas são as maneiras de pensar, há de haver tantos tipos de amor quantos são os corações." - Liev Tolstói.

Essa é a palavra.

E era exatamente a excessiva normalidade dela o que mais me fascinava. Ela não era bonita. Mas também não era feia, e por isso não chamava a atenção – passava desapercebida. Não se destacava por peso ou estatura. Ela era o famoso meio-termo. Não se podia admirá-la por sua inteligência, ou caçoar dela por sua ignorância. Ela sabia pouco sobre muito. Embora procurasse, eu não encontrava nela nada que a fizesse diferente das demais e isso me enlouquecia. Isso a tornava tão interessante. Afinal todas as outras possuíam um quê que as tornavam diferentes uma das outras, o que as acabava tornando todas iguais. Ela não. Ela não possuía nada incomum, era a única que não possuía nada distinto, e exatamente isso a tornava única. A capacidade dela de se encaixar era inacreditável. Ela conseguiria conversar naturalmente desde com o indigente até com o presidente. Ela parecia um eterno gesso fresco ou uma massinha infantil, capaz de ser moldada e re-moldada quantas vezes fosse preciso. Preferia ouvir a ser ouvida. Observar a ser observada. E era tão, mas tão comum. Ela não se fazia necessária na vida de ninguém, e me parecia que ninguém era necessário a ela. Ela era uma completa incógnita para mim. E isso me apaixonava cada segundo mais. Apesar de me incomodar nela essa coisa de super-humanismo. Nada parecia afetá-la. Podia chover, podia fazer sol. Podiam abraçá-la, podiam cuspir na cara dela. A postura era sempre mantida. Nada a tirava de seu eixo. Como pode? Uma respiração profunda erguia a cabeça dela. Sem calmantes, sem lenços, sem açúcar. Nunca pude vê-la chorar de raiva ou gritar de irritação. Nunca pude vê-la se apaixonar assumidamente ou se doar voluntariamente. Parecia estar escrito “equilíbrio” na testa dela. Rosto sereno, emoções interiorizadas. Uma vontade de descobri-la me dominava. Descobrir que segredos ela guardava em si, segredos esses que a tornava tão comum, tão normal, e por isso, não mais nem menos que por isso, tão única e fascinante. Fascinante. Essa é a palavra.


R.L.A. (meio verdade, meio mentira, meio-termo.)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bree: You know, if we really started dating, after a few months you'd realize you couldn't stand the way that I laugh, I'd hate the way that you chew, and we'd break up.
Nate: That's a romantic story.

terça-feira, 22 de março de 2011


"Sim, inesperada, porque já estava acostumado a ficar esperando e perdera a noção de que o esperado havia mesmo de vir." (M. de A.)

Voo baixo...

"A força do amor é que ele pode ser ao mesmo tempo amizade. Mas tudo o que existe de bonito nele, não vem dele não, vem da amizade grudada nele. Amor quando enxerga defeito no objeto amado, cega: 'Não faz mal!' Mas o amigo sente: 'Eu perdoo você.' Isso é que é sublime no amigo, essa repartição contínua de si mesmo, coisa humana profundamente, que faz a gente viver duplicado, se repartindo num casal de espíritos amantes que vão, feito passarinhos de voo baixo, paraindo rente ao chão sem tocar nele..."

Mario de Andrade.

terça-feira, 15 de março de 2011

"Apesar de tudo, essas tolices são bonitas. Principalmente porque tem muita sincerdidade nelas. A gente se dá, se entrega a uma ideia e lá vai que nem cego, mundo afora, até a morte ou a vitória. Vencemos? Me parece que sim."

- Mario de Andrade

segunda-feira, 14 de março de 2011

Mais que a mim. Muito mais.

Eu tinha quatro anos na época, quando recebi a notícia: seria substituída. E não era qualquer substituição: seria uma substituição completa, eterna, irreversível. Para uma criança como eu era, foi difícil. Ainda me lembro da maciez da cama em que tanto chorei naquela noite de agosto. Era o quinto dia do mês. Estrelada noite de inverno, cenário da vinda dele ao mundo. Não, eu não queria vê-lo. E como eu gritava! Era simplesmente inaceitável que eles, que tanto me diziam amar, me trocassem tão abruptamente, como se fosse algo natural. Contra minha vontade, fomos conhecê-lo, o meu substituto. No caminho, adormeci em lágrimas de desespero. Entramos naquele quarto irremediavelmente gélido, onde os encontramos: eles, os que me diziam amar, e o pequeno “ele”. Quanta raiva eu trazia. Não era possível, era inacreditável que eu fosse ser trocada por aquele pedacinho de gente que mal abria os olhos, e mais parecia uma de minhas bonecas. Disseram-me, então, para pegá-lo no colo. Sentindo o peso e o calor daquele corpo em meus braços, tão de perto, ele parecia de alguma forma afastar a minha raiva. Ele parecia tão frágil, com suas manchinhas na pele e seus cabelos loiros e finos. Mas ele continuava sendo o meu substituto, o que estava puxando o meu tapete. O que estava roubando de mim todos aqueles a quem eu amava, e que me amavam também. Aquela noite tatuou-se em meu peito. Aquela noite mudaria minha vida para sempre – anos depois eu viria a descobrir o real por quê. Fomos para casa – eles, eu, e ele. Toda a atenção e os cuidados deles voltavam-se para ele. E o tempo foi passando, e ele foi ficando mais alto, foi aprendendo a andar, a falar, a comer – e a irritar. Foi ai que o pesadelo começou. Brigas ininterruptas, discussões incessáveis. A intolerância mútua tornou-se insustentável. A culpada era sempre eu. Eu nunca fora boazinha, e sabia disso, mas ele me enlouquecia a cada minuto mais. Não podíamos dividir o mesmo raio de dez metros. E eu ouvia deles: “um dia, você vai amá-lo . Vai amá-lo com todas as forças que você tiver.” Impossível. Eu jamais seria capaz de amá-lo. Ele não me trazia benefício algum, além do mais, só a presença dele já me enfurecia. Eu não me cansava de repetir para ele “eu te odeio, eu te odeio, te odeio!’’ E assim passaram-se dias, meses, anos. Vieram dias bons e dias ruins. Momentos felizes, momentos desesperadores. Algo começou a me intrigar: em todos esses momentos, ele estava lá. E sempre estaria. Em cada momento bom, ele comemorou comigo. Em cada momento ruim, ele chorou comigo. Quando mais precisamos, nos abraçamos. E sempre se repetia: em qualquer situação diferente da nossa rotina, toda a raiva e aborrecimentos que sentíamos um em relação ao outro eram, simplesmente, esquecidos por alguns instantes. Crescemos. Vieram perdas, ganhos, mudanças. Passamos a perceber que podíamos ser úteis um ao outro muitas vezes. Ele começou a me procurar para muitas coisas; e eu comecei a gostar da ideia, e passei a procura-lo também. Agora, estar perto dele não era mais uma obrigação: tornara-se uma necessidade. Mesmo quando podíamos , até mesmo quando devíamos ficar separados, passamos a optar por estarmos juntos. E foi florescendo um sentimento. Um sentimento bom. Será que era isso que chamavam de amor? Quem sabe. A única certeza que eu tinha era de que eu o defenderia de tudo e todos. Eu daria minha vida por ele, e talvez só por ele. Eu mataria e morreria, se preciso fosse. Eu gostaria que ele nunca tivesse dúvida alguma da importância dele para mim. Ele significava tudo, ele era a minha vida. Acho que era amor, então. Um amor tão profundo e incondicional que chegava a doer, de tão forte. De tão intenso, puro e sincero. Ele era tão lindo. Eu seria capaz de passar o resto dos meus dias só olhando para ele. Cada respiração dele me fascinava. Cada sorriso dele me apaixonava. Eu ficava boba perto dele. Me perguntava se alguém seria capaz de me amar como eu o amava. Se ele era capaz de me amar um milésimo do quanto eu o amava: o que já seria infinito. Eu não tinha certeza de nada mais: só de que eu o amava. E muito. Sim. Eu o amava mais que a mim.


R.L.A. , para ele, por quem sinto o amor maior do mundo.

sábado, 12 de março de 2011

Engraçada alegre nostalgia.

Hoje chorei de saudade. Ao entrar naquela casa fantasmagoricamente vazia, foi como se um filme de toda uma vida passasse pela minha mente em duas frações de segundo. Um filme delicioso, porém cujo final esvazia os telespectadores. Naquele instante, lembrei-me do começo de tudo, quando o aparador de mesa ainda era maior do que o topo da minha cabeça. Lembrei-me de quantos sorrisos eu havia dado dentro daquela casa, onde antes já houvera tanta vida. Uma indefinível sensação de estranheza tomou conta de mim. Como pode um tudo ter se transformado em nada, em uma só volta do ponteiro do relógio? O cheiro daquela casa me causou vertigens. Trouxe-me à tona cada momento que ali vivi. Pude ouvir a voz dele em meu ouvido, clara como água. Ele me pedia um suco de abacaxi. Quantos sucos de abacaxi eu fizera para ele naquele jarro. Quantos bolinhos de chuva havíamos fritado juntos naquele fogão – depois de fritos, colocávamos muito, muito açúcar. Abri uma gaveta e encontrei um disco. Aquele disco era a figura dela para mim - uma mulher distinta, diferente de todas. Pude ouvi-la assoviando para os passarinhos naquele quintal arejado e claro, hoje abandonado à poeira. Como eles gostavam daqueles passarinhos. E hoje a gaiola, vazia, repousa em um canto qualquer da casa. Os passarinhos morreram junto com todo o tipo de vida que havia na casa. Havia a mesa da cozinha. Quantas vezes eu havia jogado carteado com ela naquela mesa. Eu sempre a vencia. Ela era um alguém único, indecifrável e incompreendida. De alguma forma, eu a amava. Em algum lugar do fundo da minha alma, estava guardado o amor e o carinho que por ela eu sentia. Mas ele, ah!, ele. Ele era o meu chão, a minha base, o meu heroi, ídolo, exemplo, ele era a pessoa que eu mais amava nesse mundo. Eu era capaz de fazer qualquer coisa por ele. Perto dele eu sentia algo que não tenho como definir. Amor, aquilo sim era amor, um amor incondicional, um amor sincero, sim, era amor. Hoje percorri cada centímetro daquela casa. A casa era a única lembrança concreta de como eu fui feliz. Naquela sala, eles haviam aplaudido nosso espetáculo infantil, com direito a figurino , texto e coreografias... ainda consigo sentir o cheiro das cortinas feitas com lençóis limpos, que abriam e fechavam nosso espetáculo. Ainda sinto o cheiro do bolo de milho da padaria, que ele sempre comprava para nos agradar. Sinto o cheiro da madeira de dentro daquele guarda-roupas... Quantas vezes me escondi lá dentro, dentre os vestidos estampados, e ninguém me achava – era assim que eu sempre vencia o esconde-esconde. No quarto de empregadas ainda restava uma daquelas bolas de plástico que tanto nos divertiam, antes de o chute ser forte demais e ela ir parar na casa do vizinho. Sinto o gosto do Natal que passamos naquela mesa bem-arrumada, com guardanapos coloridos dentro dos copos. Sinto o gosto dos nossos lanches de fim de tarde, acompanhados por aqueles refrigerantes de marcas que só ele comprava. Poderia durar pra sempre, mas não poderia ter sido melhor. Sou feliz por ter sido feliz. Sou feliz por tê-lo amado o máximo que fui capaz. Agonizante pensar que não volta mais. É como se tivessem arrancado uma parte de mim. Injusto não me sentir bem, simplesmente porque foi tudo maravilhoso enquanto ele esteve ali. Hoje, revisitando a casa e a história, sinto uma mescla de sentimentos, que não sei se predominantemente bons ou ruins. Sinto uma engraçada alegre nostalgia. Por ter acabado. Por ter existido.


R.L.A. - para ele, para ela, para a fantasmagórica casa vazia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Hoje.

"Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim."

Charlie Chaplin

Sentido, sem.

Sentido: na biologia, as cinco formas de receber as sensações externas; como adjetivo, triste; como interjeição, soldados. Sexto sentido, sentido da vida, o amor nos dá sentido, sentido, sentido, sentido. Analisemos friamente a situação. Já tentou encontrar “sentido” em algo? Já se perguntou “para quê”? Para quê comer, se vamos sentir fome de novo daqui a meia hora? Para quê arrumar a cama, se hoje à noite bagunçaremos novamente? Para quê inspirar, se vamos ter que expirar? Quem inventou tudo isso, e para quê? Passamos, o que?, quinze anos na escola aprendendo infinitas fórmulas, datas e poesias que esquecemos no dia seguinte do vestibular. Boa memória, então, é inteligência? Não quero radicalizar nada. Quero apenas questionar. Para quê estou escrevendo esse texto, para quê tenho canetas bonitas, para quê pinto as unhas? ô ciclo vicioso! ô vida medíocre, essa. Uma espécie devora a outra, a própria espécie devora a outra, a própria espécie humana se devora e se auto-destrói. Existem moscas e sapos, e os sapos devoram as moscas! Cadê o sentido disso? Não, não encontro. Para quê usamos brincos, para quê presenteamos com flores, usamos perfume, passamos maquiagem? Para quê tentamos distrair e enganar nossos próprios ‘’SENTIDOS’’ : tato, olfato, paladar, audição, visão? Para quê para quê para quê? Para quê viver se vamos morrer? Peraí, deixemos um pouco o piloto-automático de lado e vamos refletir. Novamente: para quê viver se vamos morrer?


R.L.A. (aula chata de literatura portuguesa, novamente)

Ó dúvida...

Nunca fui uma pessoa certa, em todos os sentidos da palavra. Estou acostumada com a incerteza e com o incerto. Talvez seja isso que me fascine. Não sei o que vou almoçar daqui a meia hora. Não sei se vou ficar de recuperação. Não sei a que horas chegarei em casa. Não sei em quem darei meu próximo beijo, não sei quem será o próximo a roubar meu coração. Não sei até quando vou morar em casa, ou até quando meus pais viverão. Não sei qual será a cor do meu primeiro carro, não sei se vou me casar, não sei se terei filhos ou quantos. A incerteza é tão incrível! O novo, a novidade tempera meus dias. As dúvidas me regem e me fazem continuar. Meus sonhos realizados, os sonhos que não quero mais, os sonhos que ainda tenho, sonhos que terei. Sonhos nascendo e morrendo a cada nascer e pôr-do-sol. Erro e me redimo, acerto e me orgulho. O tempo passa e eu assisto a minha vida como se ela fosse uma novela, a leio como se fosse um livro. E todo o tipo de emoção me vem à tona. Vivo dia a dia sem uma única certeza além da morte, morte essa que me aguarda não sei onde, não faço ideia de quando. Cruel? Ó dúvida deliciosa.

R.L.A. - (durante uma aula insuportável de literatura portuguesa)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Saudade fala português.

"Quando vejo retratos, quando sinto cheiros... Eu tenho saudades de tudo que marcou a minha vida. Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei... Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou vir a ter, se Deus quiser... Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro... Sinto saudades do futuro que, se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser... Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei, de quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer. Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito; daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre; de coisas que eu tive e de outras que não tive mas quis muito ter; de coisas que nem sei que existiram mas que se soubesse, decerto gostaria de experimentar. Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências... Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer, dos livros que li e que me fizeram viajar, dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade. Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que, não sei aonde, para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi... Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em japonês, em russo, em italiano, em inglês, mas que minha saudade, por eu ter nascido brasileira, só fala português embora, lá no fundo, possa ser poliglota. Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente, quando estamos desesperados, para contar dinheiro, fazer amor e declarar sentimentos fortes, seja lá em que lugar do mundo estejamos. Eu acredito que um simples "I miss you", ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha. Talvez não exprima, correctamente, a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades... Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis, de que amamos muito do que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência...

Sentir saudade é sinal de que se está vivo!
"

terça-feira, 8 de março de 2011

Um brinde a nós, MULHERES!

"Portadoras da sedução que nenhum filho da puta sabe dar valor!
Que os nossos sejam sempre nossos, que nossos maridos sejam ricos, nossos amantes sejam gostosos, e que eles nunca se encontrem...
Que a fonte nunca seque, que nossa sogra nunca se chame Esperança, porque esperança é a última que morre...
Que sempre nos sobre e nunca nos falte, e que a gente dê conta de todos!
Que nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas, e que nunca tropecemos porque a fila anda!
Um brinde também aos namorados que nos conquistaram, aos trouxas que nos perderam e aos sortudos que ainda vão nos conhecer."

sábado, 5 de março de 2011

What about love?

O fato é que está começando a me dar náuseas, essa dependência doentil que as pessoas sentem uma em relação às outras. Eu assisto a esse espetáculo circense como se eu estivesse em uma outra esfera, assisto de fora, um zoológico de um só tipo de animal. Quanto à paixão humana, meu coração está fechado, selado e trancado. Me apaixono diariamente por palavras, livros, músicas e filmes. Por frases, autores, cantores e professores. Por família, por objetos, por astros, por sensações. Eventualmente algumas pessoas conseguem entrar para minha lista de paixões, mas nada relacionado com o sentido trivial da palavra. Se ocasionalmente toco lábios alheios com os meus próprios, faço-o pelo mero prazer físico momentâneo. Sabe aquela vertigem, aquele arrepio na espinha, aquele calor na alma? Optei por não sentir. Afinal, trata-se de um tipo de droga: na hora é prazeroso e irresistível, depois quando se nota já te dominou e, à partir daí, é só dor e sofrimento. Então para quê? Sem paixão: sem vertigem, mas também sem dor.. vale mais a pena. Pensando bem, esse tal amor deveria, como todas as outras drogas, ser ilegal. As pessoas se tornam mais inconscientes do que já o são, e sabe o que mais? Perdem-se. Adeus identidade, adeus digitais, nome, cpf. Tornam-se ridiculamente dependentes da droga do amor. Um depende do outro e ninguém depende de si próprio. Mania, essa, que o ser humano tem de se refugiar no outro. De recorrer ao outro como se recorre a uma boa dose de cachaça (aliás, muitas vezes é a isso que se recorre quando o outro falta). Mania, essa, de querer achar no outro uma pílula alucinógena, solução de todos os problemas. Enquanto essa droga for colocada em primeiro plano na vida humana, haverá dor. Haverá perda. Haverá vazio e sofrimento. E dor. Dor dor e dor. Ô raça masoquista, essa tal humanidade.


R.L.A.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Gossip Girl, ep. 24 / 2a temp.

"Because even when you're not sure where you're headed, it help to know you're not going there alone. No one has all the answers. And sometimes the best we can do is just apologize. And let the past be the past. Other times, we need to look to the future. And know that even when we think we've seen it all, life can still surprise us. And we can still surprise ourselves."

quarta-feira, 2 de março de 2011

Peace and freedom.

Ser livre. Ser livre não está relacionado com estar preso ou solto, não está relacionado em poder ou não poder. Nada disso. A liberdade é algo que ocorre de dentro pra fora. Assim como a paz. Muitos procuram sua paz em todos os lugares, em todas as pessoas. E nunca conseguem encontrar. Afinal essa procura passa por tudo e todos, menos pelo único lugar onde a paz e a liberdade podem estar: dentro de nós. Bem lá no fundo. A paz vem de dentro pra fora. A paz tem que ser encontrada por nós dentro de nós. A paz espiritual está em cada um, bem escondida. Procurar a paz nos outros sempre traz dor. E quanta dor! A paz do outro nunca será a sua paz. A sua paz nunca será a minha paz, e a minha paz nunca será a sua. Acreditar nisso é uma terrível auto-enganação . Muitas vezes fixamos nosso alicerce em alguém e temos uma errônea certeza de que estamos em paz. Mas não estamos. E descobrimos isso da pior maneira possível. Mas descobrimos. O problema é quando repete-se o erro. Aí é um sofrimento eterno. Procurando a paz no outro e se decepcionando repetitivamente. E é comum passar a vida inteira assim. Como se nunca tivesse vivido. Em uma eterna busca fracassada. O bom é que temos um aliado e tanto, chamado tempo. O tempo é infinito. E o presente está se renovando a cada segundo. Um segundo atrás é passado e daqui um segundo é futuro. Só nos resta o presente. Presente este que não só pode, como deve, ser vivido com paz e liberdade. Paz consigo para estar em paz com o outro e com o mundo. Paz consigo para não se deixar ser atingido por aquilo que vem de fora. Liberdade para aproveitar o presente nos dado, que é o tempo presente. O tempo do agora. Sem preocupações futuras e nem nostalgias passadas. O tempo presente gasto com aquilo que nos dá prazer agora. Nosso alicerce fixado em nós mesmos. Devemos ser constituídos por uma somatória de itens que nos completam e nos fazem sentir bem. Nunca, eu disse nunca, depositar todas as nossas forças em um único ponto de apoio, seja ele qual ou quem for. Faça o teste: imagine-se perdendo aquilo que mais é apegado nessa vida. Você sobreviveria? Você conseguiria continuar tendo motivações para viver, considerando os outros itens que constituem a sua vida? Tudo pode ser perdido. Não temos certeza sobre nada que não seja a morte. Ser livre é encontrar aquilo que te faz bem e permitir a si próprio fazer parte disso. Ter paz é estar em equilíbrio com a própria mente, espirito e corpo. Ter paz é ser livre. Ser livre é ter paz.

R.L.A.